image/svg+xmlRev. @mbienteeducação, São Paulo, v. 15, n. 00, e022010, 2022. e-ISSN: 1982-8632 DOI: https://doi.org/10.26843/ae.v15i00.1083 1 SAPIENS: UMA BREVE HISTÓRIA DA HUMANIDADE. 50ª EDIÇÃO. SAPIENS: UNA BREVE HISTORIA DE LA HUMANIDAD. 50ª EDICIÓN. SAPIENS: A BRIEF HISTORY OF HUMANKIND. 50THEDITION. Valdoir Pedro WATHIER1RESUMO:Esta resenha relaciona os conhecimentos da Obra de Yuval Harari à Educação. O livro evidencia o desenvolvimento humano por processos que progressivamente exigiram menos esforços manuais, permitindo direcionar tempo e energia à cognição. Duas marcas ficaram evidentes: capacidade de colaborar com semelhantes e tendência a eliminar diferentes. A Revolução Cognitiva, entre 70 e 30 mil anos atrás, alicerça nossa capacidade complexa de linguagem e ficção, viabilizando a convivência em grandes grupos de humanos. Tornamos a nós mesmos e nossas sociedades complexas e há amplas evidências de que, quanto maior a diversidade e complexidade de um ecossistema, mais ele pode resistir a ameaças. Porém, nosso percurso histórico tem sido amiúde em favor da homogeneização. Assim, pensar os focos da educação e em como aprender a viver com a riqueza da diversidade é pensar qualidade de vidas individuais e também no futuro da raça humana, una. PALAVRAS-CHAVES:Educação. Complexidade. Pensamento pedagógico. RESUMEN: Esta revisión relaciona el conocimiento del trabajo de Yuval Harari con la educación. El libro destaca el desarrollo humano a través de procesos que progresivamente requirieron menos esfuerzos manuales, permitiendo que el tiempo y la energía se dirigieran a la cognición. Dos marcas se hicieron evidentes: la capacidad de colaborar con similares y la tendencia a eliminar diferentes. La Revolución Cognitiva, hace entre 70 y 30.000 años, apuntala nuestra compleja capacidad de lenguaje y ficción, posibilitando la convivencia en grandes grupos de humanos. Nos hacemos complejos a nosotros mismos y a nuestras sociedades y hay amplia evidencia de que cuanto mayor es la diversidad y complejidad de un ecosistema, más puede resistir las amenazas. Sin embargo, nuestro camino histórico ha sido a menudo a favor de la homogeneización. Por lo tanto, pensar en los enfoques de la educación y cómo aprender a vivir con la riqueza de la diversidad es pensar en la calidad de vida individual y también en el futuro de la raza humana, unirse. PALABRAS CLAVE: Educación. Complejidad. Pensamiento pedagógico. 1Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Brasília DF Brasil. Assessoria de Gestão Estratégica. Doutorado em Educação (UCB). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4651-0105. E-mail: valdoirpw@gmail.com
image/svg+xmlTítulo do artigoRev. @mbienteeducação, São Paulo, v. 15, n. 00, e022010, 2022. e-ISSN: 1982-8632 DOI: https://doi.org/10.26843/ae.v15i00.1083 2 ABSTRACT:This review relates the knowledge of Yuval Harari's Work to Education. The book highlights human development through processes that progressively required less manual effort, allowing time and energy to be directed to cognition. Two brands became evident: the ability to collaborate with similar ones and the tendency to eliminate different ones. The Cognitive Revolution, between 70 and 30 thousand years ago, underpins our complex capacity for language and fiction, enabling coexistence in large groups of humans. We have made ourselves and our societies complex, and there is ample evidence that the greater the diversity and complexity of an ecosystem, the more it can resist threats. However, our historical course has often been in favor of homogenization. Thus, thinking about the focus of education and how to learn to live with the richness of diversity is thinking about the quality of individual lives and also about the future of the human race, as one. KEYWORDS:Education. Complexity. Pedagogical thought. Nos catálogos, esta obra não se encontra na área de Educação, mas é um título de alta relevância para entendermos o contexto amplo no qual se insere a ação educacional, seus potenciais, limites e os riscos de seguir o status quo. A breve história da humanidade contada por Harari adota uma visão de longo prazo raras vezes abordada, por argumentos de que a profundidade exige delimitar escopo, embora sabendo que isso estreita nossa visão. O autor consegue um equilíbrio raro, merecendo os múltiplos reconhecimentos que tem recebido. Nesta resenha, focamos no potencial da obra para o pensamento pedagógico e para a reflexão sobre o papel e o potencial da Educação. De partida, é sublinhado e detalhado que “é a nossa exclusividade atual, e não a multiplicidade de espécies em nosso passado, que é peculiar - e, talvez, incriminadora(HARARI, 2015, p. 16). De múltiplas espécies de humanos, restamos nós, Sapiens, que nos orgulhamos de nossa inteligência construída pelo fato de que “os humanos desviaram energia do bíceps para os neurônios” (HARARI, 2015, p. 17). Com isso, nascemos fracos, muito menos desenvolvidos fisicamente do que outros filhos e, por isso, podemos “ser educados e socializados em medida muito maior” (HARARI, 2015, p. 18). Fatores como o domínio do fogo nos permitiram deslocar o tempo de mastigar para o ato de pensar sem uma obrigação prática imediata. E se há 150 mil anos, a África já era habitada por sapiens biologicamente iguais a nós, o que costumamos tratar como grandes evoluções dos últimos milhares de anos são predominantemente relativas a aspectos culturais. Nisso, uma recorrência: por onde os sapiens passaram, foram extinguindo os grandes predadores, em especial os mamíferos, inclusive nossos primos neandertais, “similares demais para se ignorar, mas diferentes demais para tolerar” (HARARI, 2015, p. 27). O rastro da humanidade, na visão estendida, é de eliminação, sem que a tolerância tenha se evidenciado
image/svg+xmlRev. @mbienteeducação, São Paulo, v. 15, n. 00, e022010, 2022. e-ISSN: 1982-8632 DOI: https://doi.org/10.26843/ae.v15i00.1083 3 como característica. Noutro sentido, sempre nos coordenamos colaborativamente e essa é a grande marca da prevalência da humanidade. Ou seja, facilmente colaboramos com iguais, e facilmente identificamos diferenças e buscamos eliminar. A educação, parece-nos, tem papel central no quanto podemos ser mais ou menos tolerantes e, também, mais ou menos aniquiladores a depender da forma como abordamos nossas diferenças e similaridades. Harari designa importantíssima Revolução Cognitiva entre 70 e 30 mil anos atrás. A convergência é de que constituímos uma linguagem versátil que nos permitiu trocar informações e, também e surpreendentemente, falar sobre ficção: conjecturar realidades possíveis, e compartilhar impossíveis. Esse foi um passo especial para que pudéssemos conviver em grandes grupos, compartilhando horizontes e cooperando em favor deles: “sapiens podem cooperar de maneiras extremamente flexível com um número incontável de estranhos” (HARARI, 2015, p. 33). O compartilhamento de mitos, a construção e comunicação de crenças comuns, é basilar para nossa organização social. E “a maneira como as pessoas cooperam pode ser alterada modificando-se os mitos - contando-se histórias diferentes” (HARARI, 2015, p. 41). É pela articulação e proliferação de visões de realidade e da construção de ficções que, após tal revolução, “os sapiens têm sido capazes de mudar seu comportamento rapidamente'' (HARARI, 2015 p. 42). Esse processo declarou certa independência em relação à biologia e construímos modelos sociais a exemplo das “famílias nucleares e relações monogâmicas que são incompatíveis com nosso programa biológico” (HARARI, 2015, p. 51). Ou seja, passamos a fazer “escolhas culturais, dentro de um conjunto assombroso de possibilidades" (HARARI, 2015, p. 54). Começamos a tratar essas escolhas como determinação biológica, ou tendências naturais, o que nos parece um serviço, prestado também pela educação formal, de interesse à manutenção de certas condições de nosso organismo social. Inferimos que nos desenvolvemos na busca de colaborar para prevalecer, não sendo imediato que estejamos seguindo a nos desenvolver. Harari traz que “o caçador-coletor médio tinha conhecimentos mais abrangentes, mais profundos e mais variados de seu meio imediato do que a maioria dos seus descendentes modernos” (HARARI, 2015, p. 58) - criamos novos campos de saber, e nos dedicamos a eles, sem perceber que perdemos capacidades, o que inclui conhecimentos espaciais e da premência de estratégias colaborativas. Além disso, o autor indica que “o tamanho médio do cérebro de um sapiens efetivamente diminuiu desde a era dos caçadores-coletores” (HARARI, 2015, p. 58). Pelos nortes, parece que o aprimoramento da agricultura indústria permitiu que uns se valessem do trabalho dos outros, criando “novos nichos para ‘ignorantes’” (HARARI, 2015, p. 58), em ambos os sentidos: os que exploram, desaprendem fundamentos das tarefas
image/svg+xmlTítulo do artigoRev. @mbienteeducação, São Paulo, v. 15, n. 00, e022010, 2022. e-ISSN: 1982-8632 DOI: https://doi.org/10.26843/ae.v15i00.1083 4 das quais se desobrigam, e os que são explorados reduzem sua ação a tarefas repetitivas e pouco aprofundadas. Como consequência disso, um agricultor trabalha mais e tem uma dieta menos rica do que um caçador-coletor (HARARI, 2015, p. 90). Nesse sentido, Harari afirma que “as plantas domesticaram o Homo Sapiens, e não o contrário” (HARARI, 2015, p. 90). Ainda, alguns sapiens, progressivamente, domesticaram as plantas e outros sapiens dominaram por meio da agricultura. A multiplicação do trigo permitiu a multiplicação humana, que fortaleceu o cultivo. Assim, o autor sintetiza “a essência da RevoluçãoAgrícola: a capacidade de manter mais pessoas vivas em condições piores” (HARARI, 2015, p. 93). Condições privilegiadas se alavancaram: “uma das poucas leis férreas da história é que os luxos tendem a se tornar necessidades e a gerar novas obrigações” (HARARI, 2015, p. 97). A revolução agrícola tornou o futuro mais importante e trouxe de herança a “discrepância entre sucesso evolutivo e sofrimento individual” (HARARI, 2015, p. 105). Isso parece ocorrer em diversas espécies: há cada vez mais galinhas no mundo, mas que se tornam uma espécie com função de expelir ovos e se dizimar em carne. Bezerros que vivem enclausurados para garantir a maciez da carne, possivelmente vivam o êxtase dos primeiros passos precisamente no curto caminho até o matadouro. Nesse mesmo sentido, “a cada nova geração, as ovelhas tornam-se mais gordas, mais submissas e menos curiosas” (HARARI, 2015, p. 101). Essa percepção dos efeitos nocivos é pouco revelada nos textos que frequentemente lemos, pois, “a história é o que algumas poucas pessoas fizeram enquanto todas as outras estavam arando campos e carregando baldes de água” (HARARI, 2015, p. 111). E essa história mais contada tornou-se nosso mito guia para o que temos sido na parte mais recente dessa jornada. Harari indica alguns fatores que nos impedem de perceber que o que nos guia está longe de ser uma ordem natural, e sim que essa ordem só existe em nossa imaginação. Não percebemos ou, sabendo, não nos afastamos disso, porquê i) essa ordem está incrustada em nosso mundo material; ii) ela define nossos desejos; iii) ela é intersubjetiva (e lembremos que esse é o gatilho mais importante da nossa diferenciação). Parece-nos que esses pilares estão em estreita relação com nosso modelo educacional. Quanto aos nossos desenvolvimentos especializados, o autor aponta que nosso cérebro e nossa memória são preparados biologicamente para lidar com tipos específicos de informação, o que não comportava as múltiplas gestões de números que progressivamente passaram a ser tornar vitais. Disso, desenvolveu-se a escrita que, no início, “era limitada a fatos e números” (HARARI, 2015, p. 131). O autor, ao analisar tabuletas de 3.000 a 3.400 a.C. indica que “é revelador que o primeiro nome registrado na história pertença a um
image/svg+xmlRev. @mbienteeducação, São Paulo, v. 15, n. 00, e022010, 2022. e-ISSN: 1982-8632 DOI: https://doi.org/10.26843/ae.v15i00.1083 5 contador, e não a um profeta, poeta ou grande conquistador” (HARARI, 2015, p. 131). Quanto aos sistemas de escrita, aponta que “quem os inventou não conseguiu criar maneiras eficientes de catalogar e acessar dados” (HARARI, 2015, p. 136). Prosperaram os nossos mecanismos mais eficientes em termos de registro e reprodução. Isso esteve associado à ideia de separação, de especialização, de áreas temáticas e, por conta da limitação desses mecanismos, “as coisas que pertencem a mais de uma gaveta [...] são uma dor de cabeça terrível” (HARARI, 2015, p. 138). Por isso, podemos dizer que “a escrita nasceu como uma serva da consciência humana, mas pouco a pouco se tornou sua senhora” (HARARI, 2015, p. 140). Costumamos contar a história de que fomos deixando nossa rudimentaridade para traz e nos tornando seres extraordinários, sem atentar ao fato de que, nesse percurso, extinguimos ou tentamos dominar tudo que de extraordinário encontramos. É razoável pensar que estamos a fazer valer esse mecanismo contra nós mesmos: “os que foram vítimas da história uma vez tendem a ser vitimados novamente. E aqueles que a história privilegiou tendem a ser privilegiados novamente” (HARARI, 2015, p. 151). O que se percebe, porém, é que temos uma consciência apurada e que antes que nossa capacidade se reverta, para limitar-se a seguir comandos, temos a condição de adotar novas tendências. O caminho, sabemos: contar novas histórias. Para isso, temos que questionar a nossa noção de leis naturais e questionar o que alguns taxam discriminatoriamente como “não natural”. Harari esclarece que “um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir e, portanto, não necessitaria de proibição” (HARARI, 2015, p. 155). Ele alerta que o que costumamos chamar de natural não se refere à natureza, mas à teologia. E explica que “um bom princípio básico é que “a biologia permite, a cultura proíbe” (HARARI, 2015, p. 154). Embora as evidências biológicas sejam amplas de que, quanto maior a diversidade e complexidade de um ecossistema, mais ele pode resistir a ameaças, nosso percurso histórico tem sido sempre em favor da homogeneização. Nossa diversidade cultural tem, muitas vezes, sido tratada como um dificultador para o desenvolvimento, sendo que esse desenvolvimento pode ter mais a ver com o predomínio de um referencial estreito do que para nos tornarmos mais capazes de responder às ameaças à nossa existência. Nesse sentido, o autor sinaliza que estamos caminhando para uma unificação da humanidade, e assume que “a melhor forma de avaliar a direção geral da história é contar o número de mundos humanos distintos que coexistiram em um dado momento no planeta” (HARARI, 2015, p. 175). Fica evidente que esse número tem diminuído continuamente. Esse processo de uniformização cultural tem os
image/svg+xmlTítulo do artigoRev. @mbienteeducação, São Paulo, v. 15, n. 00, e022010, 2022. e-ISSN: 1982-8632 DOI: https://doi.org/10.26843/ae.v15i00.1083 6 argumentos imperialistas, teológicos, mas outro fator de convergência de crença tem se sobressaído, pois “as pessoas que não acreditam no mesmo deus nem obedecem ao mesmo rei estão mais do que dispostas a utilizar o mesmo dinheiro” (HARARI, 2015, p. 180). Nesse sentido, “dinheiro não é uma realidade material - é um construto psicológico” (HARARI, 2015, p. 187), configurando-se como o “mais universal e mais eficaz sistema de confiança mútua já inventado” (HARARI, 2015, p. 188). O dinheiro fortalece a especialização, e dedica-se a valorar tudo sob a mesma métrica. Produz um sistema amplo de confiança mútua. Para estimar o valor de tudo, esvazia-se o sentido daquilo que tem valor inestimável. O dinheiro juntou-se à religião e aos impérios como maior unificador da humanidade, e parece estar logrando sorte ainda mais ampla que seus predecessores. O dinheiro, porém, embora não sendo realidade material, gera efeitos materiais e tem seus portadores privilegiados. Se, para as crenças universais, “não faz diferença se um reino específico ganha ou perde” (HARARI, 2015, p. 222), pelo valor universal do dinheiro, a assimetria econômica gera, sim, ganhadores e perdedores, estabelecendo o próprio referencial de ganho. Ou seja, optamos por um senhor universal que produz desigualdades, não a uma visão que nos aproxima de forma minimamente isonômica. Portanto, podemos inferir que não estamos criando uma humanidade unificada, mas um domínio unificado. E esse domínio se baseia, como já tratado, na construção de desejos e de crença intersubjetiva. Essa busca infinda por satisfação, e a efemeridade dos encontros, gera outras criações em nossa mente. É nesse rumo que “o sofrimento é causado pelos padrões de comportamento da nossa própria mente” (HARARI, 2015, p. 233). O dinheiro parece-nos que convenceu mais às nossas inclinações racionais, sociais, culturais do que nossa dimensão biológica. E, por isso, Harari traz uma questão importante: “por quanto tempo poderemos manter o muro que separa o departamento de biologia dos departamentos de direito e ciência política?” (HARARI, 2015, p. 245). Por óbvio, podemos incluir a Educação nessa lista departamental. Se os preceitos econômicos vêm ditando nossos mais recentes passos como humanidade, cabe perceber que “a economia moderna cresce como um adolescente inundado por hormônios” (HARARI, 2015, p. 315). E esse ciclo é expressivamente curto, frente a toda nossa jornada. Por isso, “dizer que a sociedade global é inevitável não é o mesmo que dizer que o resultado final tinha de ser exatamente o tipo de sociedade que temos hoje” (HARARI, 2015, p. 246). Reconhecer essa dinâmica é primordial para que não limitemos a Educação às abordagens voltadas a supostas purezas, e que estejamos atentos ao fato de que “a ciência é incapaz de estabelecer suas próprias prioridades” (HARARI, 2015, p. 284). A obra expressa
image/svg+xmlRev. @mbienteeducação, São Paulo, v. 15, n. 00, e022010, 2022. e-ISSN: 1982-8632 DOI: https://doi.org/10.26843/ae.v15i00.1083 7 que, em grande parte da jornada, os sapiens não acreditavam que o futuro seria melhor do que o presente, e se movimentaram em busca de sobrevivência. O credo econômico nos tem oferecido a expectativa (repleta de desejos) de um amanhã substancialmente melhor do que o hoje, e isso tem nos movido numa busca desenfreada que não tem apresentado indicativos de que estejamos vivendo em melhor condição de bem-estar. E não tratamos apenas de questões materiais, mas da relação dos desejos e possibilidades, que nos põe em constante sensação de insatisfação, fracasso e sofrimento. A educação tem se focado em contribuir para os mecanismos que prometem melhores condições materiais, e se desviado do desafio de revisitar a origem desses anseios e, quiçá, do encorajamento à criação de novas histórias possíveis. Como se percebe da leitura, os mecanismos econômicos dependem da crença de que a economia seguirá a crescer, ou seja, da confiança de que este caminho nos levará a um futuro melhor. Nessa jornada, vamos eliminando a rica complexidade, transformando a natureza em algo homogêneo que serve melhor aos interesses hegemônicos, e nos afastando de nossos contextos mais próximos para nos conectarmos a uma expectativa de futuro e a uma comunidade difusa. Parece que isso nos tem trazido muitos desejos, mas pouca felicidade. Podemos seguir a guiar crianças e jovens nesse mesmo caminho? Podemos, nós educadores, seguir a caminhar para eles? São perguntas que a obra inspira a fazermos no campo individual, sabendo, porém, que é o intersubjetivo, o coletivo, o que acreditamos e reproduzimos massivamente que dita o nosso caminho à humanidade global. A obra evidencia que não nos diferenciamos substancialmente de outras espécies no nível individual ou de pequenos grupos, mas na possibilidade de colaborarmos em grandes grupos e de construirmos ficções coletivas e soluções inovadoras. Nosso rumo histórico tem nos levado a uma suposta prosperidade, pois nos multiplicamos substancialmente e, em paralelo, prosperam os pés de trigo e o gado, mais recentemente aos apetrechos tecnológicos. Nessa jornada histórica, ao contrário do que podemos sentir, não temos nos tornado mais